Além do radar corporativo: como blindar grandes empresas contra a fragmentação global e o papel estratégico do Brasil

Vive-se em um mundo em profunda transformação, que quebra o status quo vigente. A próxima década será marcada por profundas mudanças estruturais e na ordem global, com a desconstrução do modelo multilateral e das regras universais estabelecidas após a II Guerra Mundial.
Estudo do Millennium Project[1] aponta para uma profunda fragmentação geopolítica sem precedentes e para o provável fim da globalização experimentada nas últimas décadas. Grandes potências abandonam deliberadamente as regras internacionais para remodelar o mundo em seu próprio benefício. Quando um player forte muda as regras unilateralmente, abre caminho para que outros façam o mesmo. Migra-se de uma era de transparência e acordos globais para um ambiente opaco, de parcerias fluidas e situacionais, que aumenta a incerteza ambiental.
Essa fragmentação geopolítica já se manifesta no comércio, na segurança, na tecnologia, nas finanças e no espaço informacional. A internet, que nasceu para ser um espaço informacional sem fronteiras, divide-se em domínios digitais distintos, com governanças e regras incompatíveis entre si. Eventos recentes como a pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucrânia, aceleraram a reorganização das cadeias de suprimento e de segurança em blocos. Práticas de “nearshoring” e “friendshoring” priorizam a segurança nacional em detrimento a eficiência global. O multilateralismo perde força, acelerando a transição para o bilateralismo, o que reforça uma profunda fragmentação generalizada.

Apesar de trazer diversos benefícios à humanidade, o avanço tecnológico acelerado acarreta riscos globais e perigos existenciais que deverão ser superados nas próximas décadas. A capacidade convencional de avaliação ética está em xeque, especialmente diante da Inteligência Artificial (IA). O estudo do Millennium Project destaca que os algoritmos não são eticamente neutros, sendo urgente a criação de mecanismos de auditoria para corrigir premissas enviesadas antes que causem danos irreparáveis.
Estudo da EYGM[2] aponta para a automação inteligente, em que robôs serão integrados a IAs autorreplicáveis e maleáveis, atuando desde o reparo celular no corpo humano até a construção de bases espaciais na Lua e em Marte. A computação quântica ubíqua poderá aumentar exponencialmente a capacidade de processamento e tornar obsoletas as atuais práticas de segurança. A Internet das Coisas (IoT) deverá conectar 30 bilhões de objetos até 2030, tornando os objetos conectados vulneráveis a ataques cibernéticos graves.
Espera-se uma revolução biológica e médica. Implantes cerebrais (como a Neuralink), edição genética de embriões, quimeras e o uso de células-tronco prometem eliminar doenças hereditárias e frear o envelhecimento. Entretanto, os avanços em biologia sintética abrem portas ao bioterrorismo e ao risco de que novos organismos criados em laboratório possam escapar, gerando desastres ecológicos em massa. Há também a ameaça à privacidade e à soberania humana associada ao uso de engenharia genética, ao possibilitar o desenvolvimento de armas de destruição em massa por indivíduos isolados e à expansão de sistemas de vigilância em massa por governos.
Segundo o estudo da EYGM[3] de 2025, a demanda global por energia elétrica deverá dobrar nos próximos 25 anos, impulsionada pela eletrificação dos transportes, pela explosão de data centers e por tecnologias como blockchain, IA e a computação quântica, todas intensivas em energia. Esse movimento exige uma busca crescente por uma geração de energia segura e rápida. Como se espera que as fontes renováveis de energia não substituam por completo os combustíveis fósseis até 2050, o mercado já busca soluções disruptivas.
Para superar o custo e a poluição das baterias tradicionais de veículos elétricos, gigantes como Tesla e Toyota investem em motores a combustão de hidrogênio e em motores movidos a água (via eletrólise). Apesar da rejeição pública histórica, empresas de tecnologia (Google, Amazon, Microsoft e Meta) estão investindo bilhões em microrreatores nucleares para garantir energia limpa e ininterrupta para suas infraestruturas de IA (data centers). Há também projetos em andamento de baterias nucleares, como o protótipo brasileiro desenvolvido pelo IPEN[4] e o modelo chinês desenvolvido pela startup Betavolt[5].
Avança-se também em tecnologias na fronteira do conhecimento, como painéis fotovoltaicos em spray para janelas de prédios, estradas solares e a produção de hidrogênio por meio de plantas geneticamente modificadas, que já são realidade. A longo prazo, apostas na fusão nuclear e nos satélites de energia solar espacial (SPS) prometem energia ilimitada. O SPS tornou-se um conceito financeiramente viável devido à redução dos custos de lançamento, impulsionada pelos foguetes reutilizáveis desenvolvidos pela SpaceX. Essa redução de custos abre também as portas para o turismo espacial privado, a mineração espacial e a busca por exoplanetas, que dividem espaço com projetos de engenharia radical, como elevadores espaciais, fotossíntese artificial em massa para reverter o clima e propulsão avançada por antimatéria ou por velas solares. Entretanto, os mais de 170 milhões de pedaços de detritos orbitam a Terra a velocidades de 27.400 km/h, ameaçando diretamente a segurança e o acesso futuro ao espaço sideral.
Além dos desafios tecnológicos, a humanidade enfrenta crises profundas nas esferas social e política. Há uma “guerra” informacional em curso. Novos canais digitais são usados de forma hostil para distorcer a realidade. A velocidade da informação rasa, somada à falta de literacia informacional da população, destrói o debate saudável. Dados do Millennium Project mostram que a maioria dos jovens de 15 anos em 79 países já não consegue distinguir fatos de opiniões. Além disso, a polarização da mídia e o declínio das liberdades de imprensa tendem a enfraquecer a confiança mútua e as bases democráticas.
O aumento da ocorrência de eventos climáticos extremos amplia a demanda por justiça intergeracional. O aumento desses eventos gera pânico quanto ao futuro e dá força a movimentos jurídicos em que jovens processam os Estados por negligência climática, por priorizarem os interesses econômicos de curto prazo em vez de garantir a qualidade de vida às próximas gerações.
Enquanto se observa um avanço tecnológico sem precedentes, a desigualdade social afeta mais de 70% da população global, segundo dados da ONU[6]. O Índice de Percepção da Corrupção[7] está estagnado há uma década e a escravidão moderna atingiu a marca alarmante de 50 milhões de pessoas, gerando um ciclo global de frustração e revolta, segundo dados do Millennium Project. Por outro lado, verifica-se que a concentração global de riqueza atingiu níveis extremos. Ou seja, observa-se um avanço incipiente na busca por responsabilidade social e ambiental, mesmo com os esforços da Organização das Nações Unidas (ONU), os indicadores sociais globais registram graves retrocessos.
Ao contrário das revoluções industriais anteriores, a velocidade e o escopo das mudanças atuais poderão eliminar postos de trabalho em ritmo muito mais rápido do que o mercado consegue criar novas profissões. Isso poderá abrir caminho para novos movimentos de revolta contra a tecnologia.
Diante de um planeta que racha entre a opacidade política, a soberania de dados e as crises climáticas, fica a provocação essencial: Quais estratégias de longo prazo o Brasil está desenhando hoje para não ser apenas moldado por essas forças, mas sim um arquiteto do seu próprio futuro?
Diante desse tabuleiro global altamente volátil, no qual as regras tradicionais já não funcionam e a opacidade exige respostas dinâmicas, as organizações precisam de parceiros estratégicos que traduzam essa complexidade em ação.
É nesse ambiente de transição e incertezas que a SocialPort se posiciona como um elo fundamental, apoiando lideranças e corporações a decifrar os novos padrões e a desenvolver capacidades para agir de forma proativa.
Mais do que mitigar os riscos existenciais e as rupturas tecnológicas apontadas, a consultoria oferece a inteligência prática necessária para desenhar estratégias de longo prazo resilientes. A SocialPort apoia as organizações a transformar a fragmentação do mercado em vantagem competitiva e a garantir que sejam protagonistas do próprio futuro.
[1] Disponível em: https://www.millennium-project.org/challenges-overview/global-challenge-15/#1716123620746-022a895d-cf5c.
[2] How can soaring energy demand drive lasting prosperity? Disponível em: https://www.ey.com/content/dam/ey-unified-site/ey-com/en-gl/insights/power-utilities/documents/ey-gl-business-energy-research-and-insights-report-04-25.pdf.
[3] How can soaring energy demand drive lasting prosperity? Disponível em: https://www.ey.com/content/dam/ey-unified-site/ey-com/en-gl/insights/power-utilities/documents/ey-gl-business-energy-research-and-insights-report-04-25.pdf.
[4] Pesquisadores do IPEN/CNEN desenvolvem bateria nuclear. Disponível em: https://www.gov.br/cnen/pt-br/assunto/ultimas-noticias/pesquisadores-do-ipen-cnen-desenvolvem-bateria-nuclear.
[5] 50 anos de duração: empresa chinesa anuncia a criação da primeira bateria com energia nuclear. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2024/01/20/50-anos-de-duracao-empresa-chinesa-anuncia-a-criacao-da-primeira-bateria-com-energia-nuclear.ghtml.
[6] Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2020/01/1701331.
[7] Disponível em: https://transparenciainternacional.org.br/ipc/.

