“Alcances, Limites e Antinomias de Métodos e Técnicas em Cenários Prospectivos” – Resenha crítica

Por Rafaella Sales

Autores: Samuel Alves Soares; Jéssica Girão Florêncio; Jonathan de Araújo de Assis; Kimberly Digolin; Raquel Gontijo; Ronaldo Montesano Canesin.

Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/8964

Referência: SOARES, S. A. et al. Alcances, limites e antonímias de métodos e técnicas em cenários prospectivos. Brasília: Ipea, 2019. 61 p. (Texto para Discussão n. 2443).

1          Objetivos da Pesquisa

O estudo coordenado pelo professor Soares tem como propósito central realizar um levantamento bibliográfico detalhado dos métodos e técnicas de cenários prospectivos, com o intuito de atualizar o debate acadêmico e conferir destaque às abordagens contemporâneas dessa área do conhecimento.

Além disso, os autores propõem uma reflexão epistemológica sobre os estudos prospectivos, diante da escassez de discussões epistemológicas no campo identificado. Nesse contexto, buscam discutir seus alcances, limites e insuficiências, bem como o rigor científico e a validade do conhecimento produzido sobre o futuro. Ao apontar uma lacuna relevante na literatura contemporânea, essa abordagem visa compreender as condições de legitimidade e de reconhecimento científico do campo da prospectiva.

2          Metodologia

O método empregado no artigo fundamenta-se essencialmente em uma revisão bibliográfica e documental, abrangendo tanto o exame das principais teorias e métodos de prospectiva quanto o mapeamento de centros de pesquisa dedicados aos estudos do futuro.

Por meio da revisão da literatura, Samuel et al. buscam sistematizar o conhecimento existente e evidenciar os dilemas conceituais e metodológicos que permeiam as práticas prospectivas.

3          Principais Resultados

A análise desenvolvida por Samuel et al. conduz a um conjunto de resultados críticos e reflexivos sobre os rumos e os desafios dos estudos científicos no campo da prospectiva e dos cenários.

  • Pragmatismo em detrimento do rigor epistemológico: identificou-se uma tendência acentuada ao pragmatismo nas práticas prospectivas, o que se reflete em uma “frouxidão epistemológica”. Essa característica compromete o rigor científico e, consequentemente, a legitimidade da área perante a comunidade acadêmica.
  • Predomínio de métodos quantitativos e semi-quantitativos: O levantamento revela que esses métodos são amplamente utilizados na construção de cenários, muitas vezes combinados à análise de especialistas, o que reforça uma abordagem técnico-instrumental e pouco reflexiva.
  • Subjetividade metodológica: Com base em dados da Futuribles, constatou-se que apenas 15% dos estudos no campo do foresight analisados apresentam um método claramente definido. Em grande parte dos casos, as escolhas metodológicas são conduzidas de forma intuitiva ou pouco criteriosa, o que enfraquece a consistência científica das análises.
  • Revitalização da prospectiva: Apesar das fragilidades identificadas, observa-se um “revival” do foresight, evidenciado pela criação de novos centros de pesquisa dedicados ao estudo do futuro em diferentes regiões do mundo. Esse fenômeno indica um movimento de renovação e revalorização da área, impulsionado pela crescente demanda por planejamento de longo prazo e por visão estratégica.

4          Pontos fortes do artigo

O presente artigo apresenta como principal ponto forte o denso referencial teórico, que atua como um roteiro dos principais documentos a serem estudados para quem está entrando na área, seja no campo profissional ou acadêmico. Apresenta, de forma clara e sistematizada, o delineamento dessa área, bem como o detalhamento de métodos e abordagens que podem ser muito úteis para quem está começando.

Outro ponto forte do artigo refere-se ao levantamento de “quem é quem” no campo do foresight global, destacando centros de pesquisa, universidades e think tanks.

5          Considerações finais

Samuel et al.  concluem que os estudos de futuro desempenham um papel essencial na formulação de políticas públicas e nos processos de tomada de decisão em contextos complexos e incertos. Porém, o campo enfrenta uma tensão estrutural entre o rigor epistemológico e o pragmatismo operacional, o que gera uma antinomia que limita sua consolidação científica.

Essa fragilidade epistemológica é apontada como o principal obstáculo ao pleno reconhecimento da prospectiva como disciplina científica. Contudo, os autores defendem que é nas epistemologias alternativas à racionalidade instrumental, que valorizam a complexidade, a interdisciplinaridade e a participação social, que reside o potencial transformador da prospectiva, capaz de promover inovações cognitivas e metodológicas nos estudos dos futuros.

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SocialPort – Difundindo o Foresight no Brasil.

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