The ontological foundation for studying the future – Resenha crítica

The ontological foundation for studying the future – Resenha crítica

Autores: Alan Clardy.

Fonte: Foresight

Referência: Clardy, A. The ontological foundation for studying the future. Foresight, 2020. DOI: 10.1108/FS-02-2020-0016.

1            Objetivo da pesquisa

Esta pesquisa tem como objetivo desenvolver uma base ontológica para os “estudos de futuros” (futures studies). Alan Clardy parte de uma questão central: se o futuro ainda não existe, como ele pode ser estudado de forma séria, fundamentada e cientificamente válida?

O artigo busca enfrentar esse paradoxo. Por definição, o futuro é algo que ainda não ocorreu e, portanto, não pode ser observado diretamente. Mesmo assim, os futures studies produzem análises, cenários, projeções e reflexões sobre possibilidades futuras. Diante disso, Clardy procura demonstrar que é possível construir afirmações significativas sobre o futuro a partir da realidade presente, da história, dos sistemas sociais, das regularidades observáveis e da forma como os seres humanos pensam e agem diante do amanhã.

2            Metodologia

A metodologia utilizada é uma revisão teórica e conceitual da literatura sobre futures studies, ontologia, foresight, forecasting, sistemas sociais e comportamento humano. O artigo não realiza pesquisa empírica, nem entrevistas nem estudo de caso. Seu foco está na construção de uma fundamentação filosófica e teórica para legitimar os estudos de futuros.

Clardy revisa contribuições anteriores de autores que discutiram a natureza do futuro, como Wendell Bell, Poli, Mannermaa e Riner, e procura integrar essas contribuições em uma estrutura mais ampla. A partir dessa revisão, o autor propõe dez postulações ontológicas, acompanhadas de implicações práticas para os estudos de futuros.

 3          Principais resultados

Os resultados do artigo consistem na formulação de dez postulações ontológicas que visam sustentar a possibilidade de estudar o futuro, mesmo considerando que ele ainda não existe materialmente. Para o Clardy, os estudos de futuros não devem se basear na observação direta do futuro, mas na análise do mundo presente, de suas continuidades, mudanças, estruturas, sistemas, crenças e possibilidades emergentes.

Entre os principais pontos apresentados, destacam-se:

● O mundo atual é real, material e possui continuidade ao longo do tempo. Isso significa que as condições presentes e históricas podem ser estudadas como base para compreender possibilidades futuras.

● A realidade existe em diferentes níveis ou dimensões, como os mundos físico, biológico, psicológico e social, e o domínio socioecológico. Por isso, os estudos de futuros precisam considerar múltiplos níveis de análise.

● Alguns processos funcionam com certa regularidade, permitindo projeções ou forecasting, especialmente em fenômenos físicos e naturais. No entanto, quando se trata de sistemas sociais, essa previsibilidade é menor e deve ser tratada com cautela.

● O futuro não será uma cópia exata do presente. Mesmo que haja continuidade, sempre haverá mudança, conflitos, contradições, inovações e rupturas.

● O domínio socioecológico é marcado por complexidade e incerteza. Por isso, não existe apenas um futuro possível, mas múltiplos futuros plausíveis.

● O futuro, embora não exista materialmente, existe como elemento da psicologia humana. As pessoas pensam sobre o futuro, imaginam possibilidades, criam expectativas e tomam decisões no presente com base nessas percepções.

● Certas características da psicologia humana tendem a permanecer, como crenças, valores, objetivos, limitações cognitivas e formas de interpretar a realidade.

● As pessoas podem compartilhar narrativas comuns sobre o futuro, como utopias, distopias, colapsos, progresso, revoluções ou apocalipses. Essas narrativas influenciam ações individuais, coletivas e políticas.

● Os seres humanos aprendem com o ambiente natural e social. Esse aprendizado pode ser organizado por meio da ciência, de teorias e de modelos explicativos, que auxiliam na construção de projeções sobre o futuro.

● O futuro não é totalmente predeterminado. Ele também é uma construção aberta, influenciada pela ação humana, pelas decisões coletivas, pelas instituições, pelos conflitos e pelas escolhas feitas no presente.

A principal contribuição de Clardy é mostrar que o futuro pode ser estudado de forma significativa, pois ele emerge das condições atuais. Assim, mesmo que o futuro ainda não exista como realidade empírica, ele pode ser analisado a partir de elementos que existem no presente: estruturas sociais, tendências, crenças, tecnologias, comportamentos humanos, sistemas naturais e processos históricos.

O artigo também reforça que os futures studies não devem ser confundidos com adivinhação, fantasia ou previsão absoluta. Pelo contrário, eles exigem base teórica, análise sistemática, atenção à complexidade e reconhecimento das incertezas. Nesse sentido, os cenários, projeções e análises de foresight são formas de trabalhar com futuros possíveis, e não de determinar exatamente o que irá acontecer.

4            Considerações finais

Clardy conclui que os futures studies precisam estar fundamentados na realidade presente e em suas raízes históricas. Como o futuro ainda não existe, ele não pode ser estudado diretamente. No entanto, é possível formular afirmações relevantes sobre ele ao observar como o mundo atual funciona, quais regularidades existem, quais mudanças estão em curso e como os seres humanos imaginam e constroem suas expectativas sobre o amanhã.

O artigo é importante porque oferece uma justificativa teórica para a prática do foresight e dos futures studies. Ele mostra que o futuro deve ser compreendido como uma realidade emergente, aberta e parcialmente influenciada pela ação humana. Por isso, estudar o futuro significa estudar o presente em movimento, suas tendências, suas incertezas e suas possibilidades de transformação.

A pesquisa também alerta que os estudos dos futuros devem considerar a complexidade dos sistemas sociais e naturais, evitando previsões simplistas. Em vez de buscar um único futuro certo, o campo deve trabalhar com múltiplos futuros possíveis, reconhecendo o papel das escolhas humanas, das narrativas coletivas, dos conflitos sociais e dos possíveis wild cards na construção do amanhã.

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