A copa do mundo é um dos eventos esportivos mais assistidos do mundo, com cerca de 5 bilhões de pessoas consumindo o torneio por meio de plataformas e dispositivos

A Copa do Mundo é um dos eventos esportivos mais assistidos do mundo, a final entre a Argentina x França na Copa do Mundo de 2022 alcançou 1,5 bilhão de espectadores. Foto: Reprodução
A Copa do Mundo é um dos eventos esportivos mais assistidos do mundo. Em sua última edição, teve uma audiência global cumulativa de 5 bilhões de espectadores, que acompanharam ou interagiram com o torneio por meio de diferentes plataformas e dispositivos. A final da Copa do Mundo no Qatar, em 2022, entre Argentina e França, registrou uma audiência global de 1,5 bilhão de espectadores.
Tendo isso em vista, sob a ótica do foresight, sediar a competição não pode ser um fim em si mesmo, nem um exercício de planejamento linear rígido. O torneio deve ajudar um país a projetar sua imagem internacionalmente, funcionando como um acelerador de futuros desejáveis, integrado a uma estratégia de longo prazo que antecipe megatendências globais e prepare a nação para as incertezas críticas das próximas décadas. O cientista político Leandro Gabiati explica isso de forma clara: “Uma Copa pode funcionar como uma vitrine de diplomacia pública, capaz de comprimir décadas de percepção internacional em poucas semanas de exposição global.”
Entretanto, o cientista explica que, apesar dos impactos imediatos ao recepcionar o evento, receber a Copa do Mundo deve fazer parte de uma estratégia maior de futuro, na qual o torneio se apresente apenas como mais uma etapa para alcançar um determinado objetivo. Sem a construção dessa estratégia e do desenvolvimento de uma capacitada antecipatória, este se torna apenas um evento.
“Mas há uma distinção entre impacto e legado de imagem: o impacto é imediato e quase natural; o legado depende de coerência entre a narrativa projetada e a realidade doméstica, além de uma política externa que continue capitalizando a atenção gerada após o torneio. A mudança de imagem dura quando a Copa é parte de uma estratégia maior — e desaparece quando é o próprio fim”, afirma Gabiati.
Na perspectiva do foresight, esse legado depende da habilidade de o país mapear as forças de transformação macroambientais – como as mudanças climáticas, a transição energética e a digitização acelerada – e usar o evento como um laboratório experimental para essas novas realidades urbanas e sociais.
Além da possibilidade de ampliar a projeção internacional de um país, atualmente, por meio de um modelo recém-inaugurado nesta Copa do Mundo, foi adotada a possibilidade de candidaturas conjuntas, como ocorre neste ano, com o Estados Unidos da América, o México e o Canadá sendo coanfitriões do torneio.
Segundo Gabiati, a gestão compartilhada de uma competição desse porte traz benefícios tanto econômicos quanto geopolíticos. Esse modelo pode servir como meio de cooperação e de estreitamento de laços, como ocorreu entre o Japão e a Coreia do Sul na Copa do Mundo de 2002.
“O modelo de Copas compartilhadas transforma o torneio de um modelo de afirmação unilateral de capacidade nacional em um exercício de gestão multilateral de interesses. Países com relações de atrito regional podem usar a cogestão do evento como plataforma de aproximação pragmática — como ocorreu entre a Coreia do Sul e o Japão em 2002, quando o torneio impulsionou um nível de coordenação institucional inédito entre as duas nações. No médio prazo, esse modelo pode funcionar como âncora de integração regional, criando estruturas de interdependência que dificultam o acirramento de conflitos — especialmente relevante para regiões como a América do Sul e a África.”, complementa Gabiati.
Do ponto de vista do foresight, essa cogestão atua como uma ferramenta de backcasting: define-se uma visão de futuro de integração regional e paz geopolítica para daqui a 20 anos, e utiliza-se a governança da Copa no presente como o primeiro passo prático para construir as pontes necessárias.
Todas essas questões passam, anteriormente, por uma avaliação feita pelos países-sede a respeito das vantagens e desvantagens de sediar uma Copa do Mundo. Neste caso, a avaliação de cenários alternativos pode ser útil. Segundo Gabiati, é fundamental que a nação-sede avalie se os gastos financeiros destinados para recepcionar o evento irão, de alguma maneira, impactar positivamente a infraestrutura do país após a Copa do Mundo. Já em relação à política, é essencial delinear os objetivos almejados com o evento antes de decidir sediá-lo.
“Do ponto de vista econômico, é necessário avaliar se os investimentos exigidos pela FIFA são complementares à estratégia nacional já existente — uma estrada ou um aeroporto construído para a Copa tem valor duradouro se serve a rotas estratégicas e é desperdício se serve apenas ao torneio. Do ponto de vista político, é preciso mapear os compromissos contratuais com a FIFA, o grau de exposição a protestos domésticos e os objetivos de política externa que se pretendem obter com o evento”, explicou o cientista.
O estudioso traz a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, para exemplificar um caso de sucesso entre nações que sediaram a competição e transformaram a visibilidade e a renda provenientes do torneio em um ativo relevante para construir um futuro mais próspero. Para Gabiati, todos os países que aproveitaram o “boom” de uma Copa do Mundo têm quatro características em comum: “governança técnica e transparente, sem subordinação a lógicas eleitorais ou clientelistas; integração do turismo da Copa em uma estratégia de longo prazo de promoção dos destinos-sede; e capacidade de fazer com que a população perceba, de forma concreta, a conexão entre o evento e a melhoria nas condições de vida”.
“Os casos de sucesso — com a Alemanha de 2006 como referência mais citada — compartilham quatro características: alinhamento entre o projeto do evento e o planejamento urbano preexistente; governança técnica e transparente, sem subordinação a lógicas eleitorais ou clientelistas; integração do turismo da Copa em uma estratégia de longo prazo de promoção dos destinos-sede; e capacidade de fazer com que a população perceba, de forma concreta, a conexão entre o evento e a melhoria nas condições de vida. O sucesso não está na grandiosidade das instalações, mas na qualidade do planejamento institucional que as precede”, finalizou Gabiati.
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