Effects of scenario planning on participant mental models – Resenha crítica

Autores: Margaret B. Glick, Thomas J. Chermack, Henry Luckel e Brian Q. Gauck
Fonte: European Journal of Training and Development
Referência: Glick, M. B.; Chermack, T. J.; Luckel, H.; Gauck, B. Q. Effects of scenario planning on participant mental models. European Journal of Training and Development, v. 36, n. 5, p. 488-507, 2012. DOI: 10.1108/03090591211232066.
1 Objetivo da pesquisa
Esta pesquisa tem como objetivo avaliar os efeitos do planejamento por cenários sobre os estilos de modelos mentais dos participantes. Os autores partem da ideia, bastante presente na literatura, de que o planejamento por cenários pode modificar pressupostos, percepções e formas de pensar dos indivíduos dentro das organizações.
O artigo busca superar uma limitação importante da área: muitas afirmações sobre a capacidade dos cenários de alterar modelos mentais eram sustentadas principalmente por relatos práticos e evidências anedóticas. Assim, os autores procuram verificar empiricamente se a participação em projetos de planejamento por cenários produz mudanças mensuráveis nos estilos de modelos mentais individuais.
2 Metodologia
A metodologia utilizada foi quantitativa, com desenho de pré-teste e pós-teste. A pesquisa envolveu 129 participantes de 10 organizações diferentes, com cargos variados, desde trabalhadores operacionais até gestores executivos. Todos os participantes passaram por intervenções de planejamento por cenários.
O instrumento utilizado foi o Mental Model Style Survey, um questionário desenvolvido para avaliar cinco estilos de modelos mentais: político, financeiro, de eficiência, social e sistêmico. Os participantes responderam ao questionário antes e depois das oficinas de planejamento por cenários.
A intervenção seguiu um modelo de planejamento por cenários, baseado em etapas como a preparação do projeto, entrevistas, definição da questão estratégica, identificação de forças motrizes, classificação das forças por impacto e incerteza, construção da matriz 2×2, elaboração das narrativas de cenários e aplicação de exercícios de windtunneling. A análise dos dados foi realizada por meio de testes t pareados, que compararam os resultados do pré-teste e do pós-teste.
3 Principais resultados
Os resultados mostram que o planejamento por cenários pode influenciar os estilos de modelos mentais dos participantes. O estudo identificou mudanças estatisticamente significativas em quatro dos cinco estilos analisados: político, eficiência, social e sistêmico.
Entre os principais achados, destacam-se:
● O estilo de modelo mental político diminuiu após a participação no planejamento por cenários, indicando menor tendência dos participantes a enxergarem a organização apenas como um espaço de disputas, interesses ocultos e relações de poder.
● O estilo financeiro não apresentou mudança estatisticamente significativa, sugerindo que participantes com forte orientação financeira podem ser menos influenciados por esse tipo de intervenção.
● O estilo de eficiência aumentou, indicando que os participantes passaram a considerar mais fortemente aspectos de organização, funcionamento e racionalização dos processos.
● O estilo social também aumentou, reforçando a ideia de que o planejamento por cenários, por ser uma atividade coletiva, favorece o diálogo, a interação, a comunicação e a construção compartilhada de sentido.
● O estilo sistêmico apresentou uma das mudanças mais relevantes, mostrando que o planejamento por cenários contribui para que os participantes compreendam melhor a organização como um sistema inserido em um ambiente dinâmico.
A principal contribuição de Glick, Chermack, Luckel e Gauck consiste em oferecer evidências empíricas para uma afirmação recorrente na literatura: que o planejamento por cenários pode alterar modelos mentais. O estudo mostra que os cenários não apenas geram narrativas sobre futuros possíveis, mas também provocam mudanças na maneira como os indivíduos interpretam a organização, suas relações internas e seu ambiente externo.
O artigo também contribui para a área de desenvolvimento de recursos humanos, pois demonstra que o planejamento por cenários pode ser utilizado como instrumentos de aprendizagem, de desenvolvimento organizacional e de melhoria do desempenho. Ao estimular o pensamento sistêmico, o diálogo e a reflexão sobre incertezas, os cenários podem ajudar os participantes a pensar de forma mais inovadora e estratégica.
4 Considerações finais
Glick, Chermack, Luckel e Gauck concluem que a participação em planejamento por cenários pode influenciar os modelos mentais individuais. Embora o estudo não estabeleça causalidade definitiva por não utilizar grupo de controle, apresenta evidências consistentes de que os participantes alteraram seus estilos de pensamento ao longo da intervenção.
O artigo reforça a importância dos cenários como ferramenta de aprendizagem organizacional. Mais do que produzir histórias sobre futuros possíveis, o planejamento por cenários contribui para mudar a forma como os participantes percebem a organização, compreendem suas dinâmicas e se preparam para tomar decisões em contextos de incerteza.
Os autores também destacam a necessidade de novas pesquisas, especialmente com grupos de controle e testes posteriores de longo prazo, para verificar a permanência dessas mudanças. Ainda assim, o estudo representa uma contribuição importante por utilizar uma das maiores amostras quantitativas na pesquisa sobre planejamento por cenários e por demonstrar empiricamente mudanças significativas nos estilos de modelos mentais.
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