Scenario Building: Uses and Abuses – Resenha Crítica

Autores: Philippe Durance; Michel Godet

Fonte: Technological Forecasting and Social Change

Referência: DURANCE, P.; GODET, M. Scenario building: Uses and abuses. Technological Forecasting and Social Change, v. 77, p. 1488–1492, 2010. DOI: 10.1016/j.techfore.2010.06.007

1          Objetivo da pesquisa

Esta pesquisa tem como objetivo discutir o uso de cenários nos estudos de foresight, apresentando critérios para avaliar sua qualidade e orientar sua utilização no planejamento estratégico.

Os autores procuram responder a três questões principais: o que é um cenário, como avaliar sua qualidade e quais estratégias são adequadas a diferentes cenários. O artigo também busca mostrar que os cenários não devem ser produzidos como um fim em si mesmos, mas sim utilizados para apoiar decisões e orientar ações diante de diferentes futuros possíveis.

2          Metodologia

A metodologia possui caráter teórico e metodológico, baseada na análise das principais abordagens de construção de cenários e das técnicas e métodos utilizados em strategic foresight.

Philippe Durance e Michel Godet discutem diferentes métodos, incluindo structural analysis, stakeholder analysis, morphological analysis, Delphi, Reigner’s abacus e multi-criteria analysis. Também apresentam experiências práticas de organizações como Lafarge, Renault e Shell, utilizadas para mostrar diferentes aplicações dos cenários.

 3         Principais resultados

Os resultados mostram que a qualidade e a utilidade dos cenários dependem de critérios metodológicos claros e de sua relação direta com a tomada de decisão.

Entre os principais resultados, destacam-se:

  • Um cenário não representa o futuro em si, mas constitui uma ferramenta para representar futuros possíveis e desejáveis, permitindo esclarecer decisões tomadas no presente.
  • Durance e Godet estabelecem cinco condições fundamentais para que um cenário seja considerado adequado: pertinence, coherency, likelihood, importance e transparency.
  • O artigo diferencia exploratory scenarios, construídos a partir de tendências passadas e presentes, de normative scenarios, elaborados a partir de imagens alternativas e desejáveis ou indesejáveis do futuro.
  • Os autores ressaltam que foresight e cenários não são sinônimos. O cenário só tem valor quando contribui para compreender as consequências das decisões atuais e orientar ações estratégicas.
  • A escolha da estratégia depende do grau de incerteza. Quando os cenários são relativamente semelhantes, pode-se adotar uma estratégia mais arriscada ou mais robusta. Quando apresentam grande contraste e elevada incerteza, torna-se mais adequada uma estratégia flexível, baseada em escolhas reversíveis.
  • O estudo destaca a importância de ferramentas metodológicas rigorosas para estruturar o processo de foresight, reduzir incoerências e organizar a participação dos diferentes stakeholders.

A principal contribuição do artigo é mostrar que produzir muitos cenários não implica necessariamente produzir um bom estudo no campo do foresight. Para Durance e Godet, o mais importante é utilizar métodos adequados, construir cenários coerentes e, principalmente, transformá-los em projetos e ações estratégicas.

4          Considerações finais

Durance e Godet concluem que os cenários são instrumentos importantes para o foresight, mas seu valor depende da forma como são construídos e utilizados.

O artigo reforça que os métodos precisam ser simultaneamente rigorosos, participativos e acessíveis, permitindo que os participantes compreendam o processo e utilizem seus resultados na tomada de decisão.

Durance e Godet também defendem uma aplicação contingente e modular dos métodos, ou seja, as ferramentas devem ser escolhidas e combinadas de acordo com o problema analisado, os recursos disponíveis e o tempo destinado ao estudo.

Por fim, a pesquisa apresenta uma crítica importante ao uso excessivo de cenários: o objetivo do foresight não é produzir cenários em grande quantidade, mas sim utilizar o conhecimento produzido para orientar projetos, estratégias e ações no presente. Dessa forma, o futuro deve ser compreendido não apenas como algo a ser antecipado, mas como uma realidade que pode ser construída por meio das escolhas e ações realizadas no presente.

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