Singapura, Reino Unido e Finlândia apresentam o que há de mais sofisticado no uso do foresight na administração pública e inspiram Brasil

Singapura, Reino Unido e Finlândia apresentam o que há de mais sofisticado no uso do foresight na administração pública e inspiram Brasil

O uso do foresight para apoiar a tomada de decisão e antecipar-se a eventos futuros vem crescendo ano após ano, principalmente entre os países considerados desenvolvidos

O Reino Unido apesar de não adotar uma metodologia única de foresight institucionalizada no governo, apresenta um longo histórico de convergência na adoção do foresight nas políticas públicas. Foto: Shutterstock

O uso do foresight para apoiar a tomada de decisão e antecipar-se a eventos futuros vem crescendo ano após ano, principalmente entre os países considerados desenvolvidos. Todavia, dentro deste campo de estudo, destacam-se três países: dois europeus, Finlândia e Reino Unido, e o arquipélago no sudeste asiático, a Singapura.

Começando por Singapura, o país já realizava, desde o final da década de 1980, experimentos no campo do planejamento por cenários no âmbito da Defesa. Apesar de essa experiência não ter surtido o efeito desejado à época, foi essencial para a criação do Center for Strategic Future (CSF), órgão que, atualmente, está vinculado ao gabinete do Primeiro-Ministro do país, é o responsável pelo planejamento estratégico da cidade-estado.

O processo de planejamento estratégico de Singapura é focado em: pensar o futuro a longo prazo, planejar cenários, consultar a população e estar sempre atento ao presente para fazer revisões e mudanças em decorrência do dinamismo e da imprevisibilidade que o futuro sempre nos apresenta.

A Finlândia é reconhecida como o país em que o foresight está mais entranhado nas engrenagens da administração pública e na vida dos finlandeses. Isso ocorre porque o foresight está institucionalizado no governo finlandês. Em 1993, foi fundado o Comitê do Futuro (Committee for the Future) no Parlamento (Eduskunta) do país nórdico. Esse comitê fica a cargo de solicitar a cada novo governo eleito um Relatório do Futuro (Government Report on the Future); assim, os novos representantes são “forçados” a pensar para além dos seus quatro anos de mandato.

Para além da institucionalização do “foresight”, a Finlândia é referência em future literacy. O sistema de educação finlandês tem o dever de lecionar do Ensino Fundamental ao Ensino Médio, com disciplinas voltadas ao hábito de pensar sobre o futuro, as quais são parte integrante da grade curricular dos alunos.

O Reino Unido, por sua vez, apesar de não adotar uma metodologia única de foresight institucionalizada no governo, apresenta um longo histórico de convergência na adoção do foresight nas políticas públicas. Pensar a longo prazo já era uma preocupação do governo britânico desde os anos 70, tendo passado por diferentes processos e conceitos. Inicialmente, reservando-se apenas às preocupações com a Defesa e com as industriais, com grande foco na inovação associada à capacidade comercial do país. Ao longo do tempo, expandiu-se para questões sociais: envelhecimento populacional, criminalidade e tecnologia.

Todas essas evoluções culminaram na criação do Government Office for Science (GO-Science) em 2007. O GO Science é um think-tank diretamente ligado ao Primeiro-Ministro britânico e ao seu gabinete, com a função estratégica de apoiar a tomada de decisão do governo britânico por meio do levantamento de dados fundamentados na realidade e da criação de múltiplos cenários. Hoje, o governo britânico tem como foco expandir o planejamento, com foco em múltiplos futuros, para toda a administração pública do país, e não concentrar a atividade apenas no centro da burocracia estatal do Reino Unido.

A prática de planejar o futuro começou a ser debatida como ferramenta governamental no Brasil desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mas somente após a criação do Plano Plurianual (PPA), em 1988, essa prática adquiriu status constitucional. Os governos de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva produziram materiais relevantes sobre o tema, como “Brasil 2020”, “Brasil 3 Tempos” e “Brasil 2022”, respectivamente. Já os governos de Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro, apesar de terem criado secretarias com atribuições voltadas ao planejamento estratégico e à prospectiva, não desenvolveram projetos nacionais estruturados de longo prazo.

Destaca-se que durante os Governos de Dilma Rousseff e Michel Temer, a Dra. Elaine Marcial, hoje sócia fundadora da SocialPort, ocupava o cargo de Coordenadora-Geral de Planejamento no Ipea, e coordenou o Brasil 2035 – cenários para o desenvolvimento do país, em parceria com a Assecor. Apesar do sucesso do projeto, seus resultados não foram utilizados na formulação de políticas públicas.

No final do governo de Jair Bolsonaro e no início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a Dra. Elaine, em parceria com a Assecor, desenvolveu o projeto Brasil 2045, também com foco no desenvolvimento do país. Esse projeto também teve grande repercussão, mas foi pouco eficaz na tradução para a formulação de uma estratégia de longo prazo para o Brasil.

Atualmente, durante o terceiro mandato do presidente Lula, foi criada, pelo Ministério do Planejamento e Orçamento, por meio da Secretaria Nacional de Planejamento, a estratégia denominada “Estratégia Brasil 2050”. A iniciativa busca refletir sobre temas relacionados ao desenvolvimento brasileiro — como economia, segurança pública, saúde, educação e trabalho — para além dos mandatos presidenciais e das fronteiras setoriais.

Apesar dos avanços e exemplos apresentados, muitas dessas iniciativas ainda esbarram na lógica imediatista presente na cultura política brasileira e na disseminação limitada da future literacy na sociedade. A predominância de instrumentos como os PPAs evidencia uma dinâmica institucional fortemente vinculada aos ciclos governamentais de quatro anos, o que dificulta a consolidação de estratégias nacionais de longo prazo.

No que diz respeito à future literacy, ainda são escassas as iniciativas públicas voltadas ao incentivo da reflexão crítica sobre o futuro, especialmente entre os mais jovens. Nesse sentido, o sucesso de experiências internacionais apresentadas ao longo do texto, assim como iniciativas brasileiras, como o “Sergipe 2050”, podem servir de inspiração para que o governo brasileiro implemente, de forma mais organizada e coordenada, práticas de foresight e de planejamento estratégico na estrutura institucional do Estado. Além disso, países como a Finlândia demonstram que pensar o futuro não deve ser apenas uma tarefa governamental, mas também um exercício social e educacional.

Aproveitamos para informar que, no site da SocialPort, é possível obter os seguintes documentos citados.

Brasil 2035 e Brasil 2045 – Disponível em: https://socialport.com.br/livros/

RTC Singapura – Disponível em: https://socialport.com.br/como-singapura-se-tornou-referencia-mundial-em-foresight/

RTC Finlândia – https://socialport.com.br/visita-de-benchmarking-a-finlandia/

RTC Inglaterra que possui uma seção falando sobre a atuação do Governo Inglês no campo do foresight – Disponível em: https://socialport.com.br/visita-de-benchmarking-a-inglaterra/

A SocialPort possui uma equipe de especialistas em foresight, além de sua plataforma tecnológica, que apoia processos de foresight, a formulação da estratégia e a tomada de decisão. Estamos à disposição para apresentar nossas soluções no campo do foresight, incluindo capacitação na área. Marque um horário conosco:contato@socialport.com.br.

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